Chapter 3
Marcado
Acordei com um gosto na boca que não conseguia identificar. Não era ruim. Nem bom. Algo mineral, como moedas esquecidas na chuva, e por baixo, ela. Aquele cheiro. Eu estava duro antes de abrir os olhos, doendo de um jeito que nada tinha a ver com a manhã.
O apartamento estava estranho. A luz entrava pelo ângulo errado. O relógio na mesa de cabeceira marcava 14h47, e eu não tinha memória de ter chegado em casa. A última coisa que conseguia lembrar com clareza era a mão dela na minha, dedos frios entrelaçados nos meus, e a boca dela no meu pulso.
Depois disso, fragmentos.
A palma da mão dela plana contra meu peito, me empurrando para trás no couro. Um poste de rua passando rapidamente por uma janela. O peso dela sobre meu colo, o comprimento frio das suas coxas, um som que eu fiz e que não reconheci como minha própria voz. Os lábios dela na minha garganta. Os lábios dela na minha garganta. Os lábios dela na minha garganta, e então uma dor pequena e aguda que se dissolveu tão rápido em prazer que eu me curvei para cima do que quer que estivesse deitado e implorei.
Ou acho que implorei. Volta em pedaços, fora de ordem, mais como um sonho do que uma memória, e toda vez que tento fixar um detalhe, ele escapa.
Fiquei debaixo do chuveiro por muito tempo. A água corria sobre mim e eu senti, pela primeira vez que me lembro, como se meu corpo fosse algo que pertencia a outra pessoa. Não de um jeito ruim. De um jeito que me fez arrastar a mão pelo meu próprio peito e senti-la ali, uma marca fria impressa na minha pele.
Duas pequenas marcas na lateral do meu pescoço. Eu as encontrei por acidente, os dedos roçando o local enquanto secava o cabelo. Não doíam. Pareciam mordidas de amor, quase, exceto que eram mais limpas, emparelhadas, do tamanho do sorriso dela.
Eu disse a mim mesmo que não era nada. Eu disse isso a mim mesmo o dia todo, parado em frente ao espelho, inclinando o queixo para pegá-las na luz. Nada. Uma erupção. Uma alergia. Uma mulher que beijou com muita força.
Mas a marca doía. Não a pele. Mais fundo. Um puxão doce e suave como uma maré, como se algo tivesse sido enfiado no meu sangue e puxado. E quando fechei os olhos, pude sentir a boca dela novamente, e o quarto desapareceu, e eu estava de volta naquele assento com a cidade borrando-se pela janela e a voz dela me dizendo para ficar quieto, ser bom, e eu fui. Eu fui tão bom.
Eu deveria estar assustado.
Continuo dizendo isso a mim mesmo, no espelho, no escuro. Eu deveria estar assustado. Uma mulher que encontrei duas vezes me levou para algum lugar que não consigo lembrar e deixou algo em mim que não consigo explicar, e eu deveria estar correndo para um médico, para a polícia, para qualquer um.
Em vez disso, estou parado na minha janela na chuva, inclinando o queixo para o vidro para poder ver as marcas no meu próprio reflexo, e estou esperando.
Estou esperando que ela volte para terminar o que começou.