She Hungers, I Thirst

Chapter 1

Encontrado Por Ela

A chuva caía torrencialmente, embaçando a cidade numa mancha de cinza e néon. Eu me mantinha nas sombras, um observador silencioso de um mundo que nunca realmente me notava.

Foi então que ela deixou cair seu cachecol numa poça perto da entrada do beco.

Avancei, minha mão tremendo ligeiramente ao estender a mão para a seda. No momento em que meus dedos roçaram o tecido molhado, o ruído da cidade pareceu desaparecer no silêncio.

Um cheiro cortou o ar úmido. Algo agudo, como o ar antes de uma tempestade, misturado com o fraco cheiro metálico de sangue.

Levantei os olhos, e o ar prendeu-se na minha garganta.

Os olhos dela foram a primeira coisa que notei. Eram diferentes de quaisquer olhos que eu já vira, escuros e impossíveis de ler, que continham uma estranha calma que me fazia sentir que ela podia ver muito mais do que eu queria que ela visse.

Havia algo nela que parecia errado.

Não assustadora de forma óbvia. Ela não estava me ameaçando. Ela não estava fazendo absolutamente nada.

Era isso que me incomodava.

Ela estava ali, completamente imóvel, intocada pelo caos ao seu redor. A chuva caía. Pessoas passavam apressadas. Carros se moviam pelas ruas.

Mas ela parecia separada de tudo aquilo.

Quando lhe entreguei o cachecol, as pontas dos dedos dela roçaram minha palma. Uma sensação fria percorreu-me, aguda o suficiente para que eu notasse.

"Obrigada", ela sussurrou.

A voz dela era baixa, mas carregava algo que eu não conseguia explicar. Não era alta nem imponente, mas prendia minha atenção por completo.

Meu coração martelava contra as costelas.

Eu queria me afastar. Algum instinto me dizia que eu deveria.

Mas eu não conseguia.

Havia algo nela que me atraía. Um sentimento que eu não conseguia nomear. Ela era uma estranha, alguém que eu nunca havia conhecido, ainda assim, estar ali parecia estar na presença de algo que eu não compreendia.

Por um momento, o olhar dela pairou sobre mim.

Não foi um olhar normal.

Parecia que ela estava me estudando.

Então, desapareceu, substituído por aquela mesma expressão calma.

"Tenha cuidado", ela disse.

Não sei por que aquelas palavras ficaram comigo.

Talvez tenha sido a maneira como ela as disse. Talvez tenha sido o olhar nos olhos dela.

Soou como um aviso.

Ou algo mais.

Antes que eu pudesse responder, ela se virou e se afastou.

Eu a observei desaparecer na chuva, esperando vê-la chegar ao fim da rua, esperando ver para onde ela ia.

Mas ela havia sumido.

Agora, de volta ao meu apartamento, a chuva ainda tamborila contra a janela.

Tudo está igual, mas parece diferente.

Eu encaro o bloco de notas onde eu costumava anotar metas para melhorar minha confiança. Coisas que eu poderia fazer para ter menos medo do mundo ao meu redor.

O primeiro item mudou.

Não é mais sobre bravura.

É sobre encontrá-la.

Não sei o nome dela.

Não sei de onde ela veio.

Nem sei por que me importo.

Ela era apenas alguém que conheci na chuva.

Pelo menos, é o que continuo dizendo a mim mesmo.

Mas não consigo esquecer o jeito que ela me olhou.

Pela primeira vez em muito tempo, não me senti invisível.

Senti-me notado.

E a parte que mais me assusta é que não quero esquecer essa sensação.

Não sei nada sobre ela.

Não sei o que ela é.

Só sei que algo nela me trouxe de volta ao mesmo pensamento repetidamente.

Eu quero encontrá-la.

Eu quero vê-la novamente.

E em algum lugar, no fundo, por baixo do medo e da incerteza, sei que quero que ela me encontre primeiro.