Chapter 5
A Distância
As semanas sem o filho eram as mais difíceis. O apartamento estava vazio de uma forma que parecia proposital. Como se as paredes soubessem. O silêncio tinha uma qualidade que o diferenciava da solitude. Era solidão. Ele nunca fora bom em distinguir entre as duas e não tinha certeza se importava.
Nessas semanas, ele se jogava no trabalho e nela. Ele cozinhava para um, fotografava e enviava. Trabalhava até tarde e mandava mensagens para ela nos intervalos. À noite, sentava-se no sofá e esperava pela ligação dela, e quando ela vinha, o apartamento se transformava. Não fisicamente. Nada mudava no cômodo. Mas o ar mudava. A qualidade da luz mudava. A voz dela preenchia o espaço da mesma forma que a música preenche um lugar, não ocupando espaço, mas mudando a sensação do ambiente.
Ele começou a notar que seus humores estavam ligados a ela. Não de uma forma codependente. Não de uma forma que o assustasse. Mas de uma forma que lhe dizia algo que ele já sabia. Que ela havia entrado sob sua pele e em seus ossos, e ele não a queria fora. Quando ela estava feliz, mesmo por telefone, o dia dele era melhor. Quando ela estava cansada, estressada ou triste, ele sentia no peito como uma mudança no tempo.
Ela ligou para ele numa quarta-feira à noite. No horário dela. Tarde para ele. Ela tinha acabado de chegar em casa de um turno duplo e estava exausta, mas ligou mesmo assim porque precisava ouvir a voz dele. Ele podia ouvir isso na forma como ela disse 'oi'. O peso na voz. O cansaço.
Ele disse: Dia difícil?
Ela disse: Tudo difícil. A cozinha estava um desastre. Um cliente gritou comigo porque o bife dele estava passado. Lily chorou quando a deixei na escola porque não queria que eu fosse embora. E estou com uma dor de cabeça que não passa.
Ele disse: Sinto muito. O que você precisa?
Ela disse: Apenas converse comigo. Sobre qualquer coisa. Me diga algo bom.
Ele pensou por um momento. Então ele contou a ela sobre o dia dele. Os detalhes chatos e comuns. Uma reunião que se estendeu. Um bug que ele consertou. Uma caminhada até a loja onde ele viu um cachorro que parecia estar usando um suéter, mas era apenas a forma como seu pelo crescia. A forma como o céu estava às quatro da tarde, baixo, cinzento e pesado, e como ele havia ficado na janela por um minuto apenas olhando para ele porque o lembrava de uma pintura que não conseguia nomear.
Ele falou por vinte minutos. Sobre nada. Sobre tudo. E ele podia ouvir a respiração dela do outro lado, lenta e constante, e a tensão em sua voz se desfazendo gradualmente como um fio de um carretel.
Quando ele parou de falar, ela disse: Obrigada.
Ele disse: Pelo quê?
Ela disse: Por fazer o mundo parecer menor. Por fazer meu dia parecer que não foi só de coisas ruins. Você tem um jeito de fazer isso.
Ele disse: A qualquer hora. É sério. Sempre que precisar que o mundo pareça menor, me ligue.
Ela disse: Posso aceitar a oferta.
Ele disse: Por favor, faça.