Chapter 15
A Porta
Ele se levantou. As pernas pareciam pertencer a outra pessoa. Caminhou até a porta. Eram talvez dez passos da cama até a porta e pareceu a caminhada mais longa de sua vida.
Ele podia ouvir a própria respiração. Rápida demais. Rasa demais. Tentou desacelerá-la. Não conseguiu.
Ele pôs a mão na maçaneta. Metal frio. Real. Ele estava ali. Ela estava do outro lado daquela porta. Depois de um ano de telas, vozes e oceano, ela estava do outro lado de uma porta que ele podia abrir com um giro do pulso.
Ele pensou em tudo o que lhe dissera. Em tudo o que ela lhe dissera. Em todas as noites tardias e manhãs cedo, nos minutos roubados e nos silêncios que diziam mais que palavras. Tudo aquilo o havia levado até ali. Àquela porta. Àquele momento.
Ele abriu a porta.
Ela estava ali.
E tudo o que ele imaginara estava errado. Tudo o que construíra em sua cabeça ao longo de um ano de fotos, chamadas e palavras estava errado. Não errado como um engano. Errado como um desenho de um pôr do sol comparado ao pôr do sol real. A forma estava certa. As cores eram próximas. Mas a coisa real tinha algo que o desenho não podia capturar. Luz. Vida. A maneira como se movia. A maneira como preenchia o espaço.
Ela era menor do que ele esperava. Ele não sabia por quê. Ela não era pequena. Era apenas uma pessoa, e as pessoas são sempre menores do que a versão delas que você constrói na sua cabeça. Ela vestia jeans e um suéter verde escuro, e o cabelo estava solto, mais longo do que parecia nas fotos e mais loiro, e ele se movia quando ela se movia, e foi isso que o desfez. O movimento. O fato de que ela se movia.
Ela estava olhando para ele. Os olhos eram os mesmos da foto. Afiados. Vigilantes. Mas pessoalmente tinham uma profundidade que uma câmera não podia captar. Eram os olhos de alguém que vira demais e sentira demais, e que estava parada na soleira da porta tentando decidir se ficava ou fugia.
Ela não fugiu.
Ela ficou ali. As mãos nos bolsos do suéter. A mandíbula tensa. Ela estava fazendo o que fazia quando estava assustada, que era parecer que estava prestes a entrar numa briga. A postura defensiva. A armadura feita de agudeza.
Ele ficou parado na soleira da porta. Não se moveu. Não falou. Apenas a olhou. O rosto dela. O cabelo dela. As mãos escondidas nos bolsos. A borda da tatuagem de 'soot sprite' (duende de fuligem) apenas visível sob a manga arregaçada do suéter.
Nenhum dos dois falou. O silêncio entre eles era diferente do silêncio no telefone. Este silêncio tinha ar. Este silêncio tinha o som da rua atrás dela e o som da respiração dele e o som da respiração dela e o som de duas pessoas paradas a um metro de distância, sem se tocar, sentindo a distância entre aqueles três pés como uma dor física.
Ela falou primeiro.
Ela disse: Você é mais alto do que eu pensava.
Ele riu. Não foi intencional. Simplesmente escapou. Aquela risada que ela ouvira pelo telefone centenas de vezes e agora ouvia pessoalmente pela primeira vez. Num quarto. Sem um alto-falante.
O rosto dela mudou quando ela ouviu. A tensão na mandíbula suavizou. Apenas um pouco. O suficiente.
Ela disse: Isso é irritante.
Ele disse: O quê?
Ela disse: Sua risada. É pior pessoalmente. É. Melhor. Quero dizer, melhor.
Ele disse: Entre.
Ela olhou para além dele, para dentro do quarto. Depois de volta para ele. Ela estava decidindo. Ele podia vê-la decidindo. A guerra dentro dela. A parte que queria entrar lutando contra a parte que estava aterrorizada com o que entrar significaria.
Ela entrou.
Ele recuou. Ela passou por ele e ele sentiu o cheiro dela pela primeira vez. Não café. Não floral. Algo mais quente. Algo com baunilha. E por baixo disso, o leve rastro de maconha e algo que era só dela, que ele não conseguia nomear, que ele reconheceria em qualquer lugar pelo resto da vida.
Ela ficou parada no meio do pequeno quarto. De costas para ele. Olhando para nada. As mãos ainda nos bolsos.
Ele fechou a porta. O som foi alto no silêncio.
Ela se virou.
Eles se olharam. Realmente se olharam. Do jeito que só se pode olhar para alguém quando se está no mesmo cômodo e não há onde se esconder. Sem tela. Sem distância. Sem oceano. Apenas duas pessoas e o ar entre elas.
Os olhos dela estavam úmidos. Ela não estava chorando. Mas estavam úmidos. A agudeza ainda estava lá, mas agora era mais tênue. Como vidro sobre a água.
Ela disse: Esta é a parte em que eu não sei o que fazer.
Ele disse: Eu também não.
Ela disse: Você disse que eu saberia o que dizer.
Ele disse: Você está indo bem.
Ela disse: Não estou fazendo nada. Estou apenas parada aqui.
Ele disse: Isso é o suficiente.
Ela olhou para ele. Olhou para ele por um longo tempo. Os olhos dela percorrendo o rosto dele. Lendo-o da mesma forma que lia as mensagens dele. Cuidadosamente. Procurando as coisas nas entrelinhas.
Ela disse: Você se parece com suas fotos.
Ele disse: Isso é bom?
Ela disse: Não. Quer dizer. Sim. Quer dizer. Eu pensei que você pareceria diferente. Pensei que você pareceria pior. Você não parece pior.
Ele disse: Obrigado. Eu acho.
Ela disse: Você parece real. É isso que é diferente. Você parece uma pessoa de verdade.
Ele disse: Eu sou uma pessoa de verdade.
Ela disse: Eu sei. Mas você não era antes. Você estava no meu telefone. Você era uma voz. Você era palavras numa tela. E agora você está aqui e é real e está ocupando espaço e eu posso ver seu peito se movendo quando você respira e isso é. Isso é muito.
Ele não se moveu em direção a ela. Ele queria. Cada célula do seu corpo queria. Mas ele ficou parado. Ele lhe deu espaço. Ele a deixou vê-lo sem a oprimir.
Ela disse: Eu vou fazer uma coisa. Não surte.
Ele disse: Ok.
Ela tirou as mãos dos bolsos. Caminhou em direção a ele. Não rápido. Não devagar. Deliberadamente. Como se estivesse atravessando uma ponte que não tinha certeza se aguentaria.
Ela parou na frente dele. Perto. Perto o suficiente para que ele pudesse sentir o calor dela. Perto o suficiente para que ele pudesse ver a textura da pele dela e a pequena cicatriz acima da sobrancelha esquerda que nunca aparecera numa foto e a maneira como o cabelo caía sobre o ombro dela.
Ela estendeu a mão.
Ele olhou para ela. A mão dela. A mão que ela descrevera segurando xícaras de café. A mão que desenhava janelas no escuro. A mão que era fria. Sempre fria. Todos reclamavam disso.
Ele a pegou.
A mão dela estava fria. Ela estava certa. Era fria e pequena na dele, e a sensação a atravessou como eletricidade. Como o primeiro som de uma música que você esperava ouvir. Como voltar para casa num lugar onde você nunca esteve.
Ela olhou para as mãos deles. Depois para ele.
Ela disse: Você não vai soltar, vai?
Ele disse: Não.
Ela disse: Bom.
Eles ficaram ali. De mãos dadas. Num pequeno quarto numa cidade à qual nenhum dos dois pertencia. Sem dizer nada. Sentindo tudo.
E então ela deu um passo à frente e encostou a testa no peito dele. Não um abraço. Não um amplexo. Apenas a testa dela. Descansando contra ele. A mão dela ainda na dele. Os olhos fechados.
Ele sentiu a respiração dela. O subir e descer dela contra o corpo dele. Sentiu o calor dela através do suéter. Sentiu o peso dela se inclinando para ele, apenas um pouco, o suficiente.
Ele levantou a mão livre. Lentamente. Dando-lhe tempo para se afastar. Ela não o fez. Ele a colocou na nuca dela. Os dedos no cabelo dela. Macio. Do jeito que ele imaginara. Do jeito que ele vinha imaginando por um ano.
Ela fez um som. Pequeno. Não uma palavra. Apenas um som. O som de algo se soltando. O som de uma parede caindo. O som de uma pessoa que vinha mantendo tudo à distância finalmente deixando-o se aproximar.
Ele ficou ali. Segurando-a. Não toda ela. Apenas as partes que ela lhe estava dando. A testa dela contra o peito dele. A mão dela na dele. O cabelo dela sob os dedos dele. O resto dela ainda de pé sozinha. Ainda se sustentando. Mas inclinada. Apenas um pouco. O suficiente.
O quarto estava silencioso. A rua lá fora estava silenciosa. O mundo estava silencioso. O único som era a respiração dela e a respiração dele e o som de duas pessoas existindo no mesmo espaço pela primeira vez.
Ela disse, contra o peito dele, abafado: Eu não vou chorar.
Ele disse: Ok.
Ela disse: Eu absolutamente não vou chorar.
Ele disse: Ok.
Ela disse: Estou chorando.
Ele disse: Eu sei.
Ela disse: Não faça disso um problema.
Ele disse: Não estou fazendo disso um problema.
Ela disse: Bom.
Ela se apertou mais. A testa dela mais forte contra o peito dele. A mão dela mais apertada na dele. Ele manteve os dedos no cabelo dela. Gentil. Lento. Do jeito que ele fazia tudo com ela.
Eles ficaram assim por um longo tempo. Ele não sabia quanto tempo. Minutos. Talvez mais. Não importava. O tempo havia parado de importar no momento em que ele abriu a porta.
Ela se afastou. Não para longe. Apenas para trás. O suficiente para olhá-lo. Os olhos dela estavam vermelhos. O rosto dela estava manchado. Ela não se parecia em nada com as fotos. Ela parecia melhor. Ela parecia real.
Ela disse: Seu coração está batendo muito rápido.
Ele disse: Eu sei.
Ela disse: É por minha causa?
Ele disse: Tem sido por sua causa por um ano.
Ela fechou os olhos. Pressionou a mão livre contra o rosto. Respirou fundo.
Ela disse: Você não pode simplesmente dizer coisas assim.
Ele disse: Eu tenho dito coisas assim por um ano.
Ela disse: Eu sei. Mas agora você está aqui e eu posso ver seu rosto quando você as diz e isso é. Isso é diferente. Isso é muito mais.
Ele disse: Isso é bom?
Ela disse: É aterrorizante.
Ele disse: Eu sei.
Ela disse: Pare de dizer 'eu sei'.
Ele disse: O que devo dizer?
Ela disse: Diga algo novo. Diga algo que eu não tenha ouvido.
Ele pensou por um momento. Olhou para ela. Parada na frente dele. Real. Perto. Viva. A coisa mais real que ele já vira.
Ele disse: Você cheira a baunilha.
Ela o encarou. Então ela riu. Aquela risada. Aquela risada rara, aguda, genuína que ele ouvira pelo telefone e agora ouvia pessoalmente e era melhor. Era muito melhor. Encheu o quarto. Encheu-o.
Ela disse: É isso que você tem? Essa é a coisa nova? Eu cheiro a baunilha?
Ele disse: É um bom cheiro.
Ela disse: Você é ridículo.
Ele disse: Eu sou consistente.
Ela disse: Deus, você realmente é.
Ela enxugou os olhos com as costas da mão. Ela ainda segurava a outra mão dele. Ela não havia soltado. Ele não havia soltado.
Ela disse: Então. E agora?
Ele disse: O que você quiser.
Ela disse: Eu te disse para parar de fazer isso.
Ele disse: Eu sei. Desculpe. Hábito. O que você quer fazer?
Ela olhou ao redor do quarto. Para a pequena cama. Para a kitchenette. Para a janela com a rua lá fora. Para a porta pela qual ela havia passado cinco minutos atrás e que havia mudado tudo.
Ela disse: Eu quero sentar. Eu quero sentar ao seu lado e quero que você continue segurando minha mão e quero não falar por um tempo. Podemos fazer isso?
Ele disse: Podemos fazer isso.
Eles sentaram na cama. Lado a lado. A mão dela na dele. Os ombros se tocando. Olhando para a parede. Para a janela. Para nada.
O silêncio era diferente de qualquer silêncio que eles haviam compartilhado antes. Não era o silêncio de uma chamada telefônica onde ambos estão em quartos diferentes em países diferentes. Não era o silêncio de uma conversa por texto onde você está esperando os pontos aparecerem. Era o silêncio de duas pessoas no mesmo quarto respirando o mesmo ar e não precisando preencher o espaço com palavras porque o espaço já estava cheio.
Ela se inclinou para ele. Apenas um pouco. O ombro dela pressionando contra o dele. A cabeça dela inclinando-se em direção ao braço dele. Não repousando nele. Ainda não. Apenas perto.
Ele sentiu o calor dela. O calor físico real do corpo dela ao lado do dele. A coisa que ele vinha imaginando por um ano. A coisa que ele desejara tanto que se tornara uma dor física. Estava ali. Era real. Ela era real.
Ele apertou a mão dela. Ela apertou de volta.
Ela disse: Isso é estranho.
Ele disse: Eu sei.
Ela disse: Estranho bom.
Ele disse: Bom.
Ela disse: Sua mão está quente.
Ele disse: Sua mão está fria.
Ela disse: Eu te disse.
Ele disse: Eu sei. Eu gosto.
Ela disse: Você é estranho.
Ele disse: Eu sou seu.
Ela ficou imóvel. As palavras pairaram no ar entre eles. Ele não planejara dizê-las. Elas simplesmente escaparam. Do jeito que a verdade escapa quando você está cansado demais para editá-la.
Ela não disse nada por um longo tempo. Apenas ficou ali sentada. Segurando a mão dele. Inclinada para ele. Respirando.
Então ela disse: Sim. Você é.
Ela disse isso baixinho. Como uma confissão. Como algo que ela vinha guardando na boca por meses e finalmente soltara.
Ela disse: Você é meu. Eu não sei o que fazer com isso. Mas você é.
Ele não disse nada. Não precisava. As palavras estavam ali. A palavra. Aquela que ele não dissera. Aquela que ela não dissera. Estava ali no quarto com eles, sentada entre eles na cama, mais real do que qualquer um deles.
Eles ficaram sentados no silêncio. A luz da tarde entrando pela janela. O som da rua lá fora. O som da respiração dela. O som do coração dele. O calor da mão dela na dele.
E a palavra que eles ainda não conseguiam dizer preenchendo o quarto como música.