Woven in the Wires

Chapter 14

O Voo

O aeroporto era familiar, com aquela familiaridade que todos os aeroportos têm. As mesmas lojas. As mesmas luzes. O mesmo zumbido baixo de pessoas indo para algum lugar. Ele se moveu por ele no piloto automático. Mala despachada. Segurança ultrapassada. Portão localizado. Sentou-se numa cadeira de plástico e olhou para a tela na parede, esperando que a sua fila fosse chamada.

Ele tinha-lhe enviado uma mensagem antes de sair para o aeroporto. Uma mensagem simples. Estou a sair. Envio mensagem quando aterrar.

Ela tinha respondido: Boa viagem. Estarei aqui.

Três palavras. Estarei aqui. Ele leu-as duas vezes e não as apagou, ao contrário da maioria das coisas que apagava. Deixou-as ficar na tela. Deixou que significassem o que significavam.

O voo foi longo. Onze horas. Ele tinha um lugar à janela e passou as primeiras horas a olhar para o céu e depois para o oceano, e depois mais céu e mais oceano. O mesmo oceano que os tinha separado por um ano. O mesmo oceano que os mantivera seguros e distantes. Ele estava a voar sobre ele agora. A atravessá-lo. A apagá-lo, pelo menos por um tempo.

Ele tentou dormir. Não conseguiu. A sua mente não parava. Continuava a imaginar cenários. O que aconteceria quando ele aterrasse. O que ela estaria a vestir. Como seria o rosto dela quando o visse. Se ela o abraçaria ou se afastaria, ou faria algo intermédio que só ela poderia inventar.

Ele pensou em todas as formas como as coisas poderiam correr mal. O medo estava lá. Vivia no seu estômago como uma pedra. E se a química não estivesse lá. E se a voz e as palavras não se traduzissem no espaço físico. E se ele olhasse para ela e não sentisse nada. E se ela olhasse para ele e não sentisse nada.

Ele não acreditava que não sentiria nada. Ele já estava a sentir demasiado e ainda nem tinha aterrado. Mas o medo estava lá de qualquer forma. O medo estava sempre lá. Estivera lá desde a primeira mensagem. Estaria lá quando ele saísse do avião. Provavelmente estaria lá quando ele estivesse à frente dela. Nunca desapareceria completamente. Ele tinha aceitado isso.

O avião aterrou. Ele pegou na sua mala. Ele passou pela alfândega. Ele atravessou a sala de chegadas. Ele saiu e o ar era diferente. Mais quente. Luz diferente. Céu diferente. Ele estava aqui. Estava no país dela. Na cidade dela. A meio mundo de distância do seu apartamento e do seu sofá e do seu balcão da cozinha e da vida que ele tinha vivido por trinta e oito anos.

Ele apanhou um táxi. Deu ao motorista o endereço do Airbnb. Sentou-se no banco de trás e observou a cidade passar pela janela e tudo era estranho e novo e ele estava sozinho nela e ela estava em algum lugar nela e a distância entre eles estava a diminuir a cada quarteirão.

O Airbnb era pequeno. Limpo. Uma cama. Uma kitchenette. Uma janela que dava para uma rua que ele não conhecia. Ele largou a mala. Sentou-se na cama. Tirou o celular.

Ele digitou: Estou aqui.

Três pontos apareceram. Desapareceram. Apareceram de novo.

Ela disse: Onde?

Ele disse: No Airbnb. Acabei de chegar.

Ela disse: Como foi o voo?

Ele disse: Longo. Não dormi.

Ela disse: Devias dormir.

Ele disse: Não vou dormir. Não agora.

Uma pausa. Longa o suficiente para que ele sentisse o pulso nos punhos.

Ela disse: Queres que eu vá?

Ele disse: Queres vir?

Ela disse: Eu perguntei primeiro.

Ele disse: Quero o que tu quiseres.

Ela disse: Para de fazer isso. Eu disse-te. Sê uma pessoa.

Ele disse: Ok. Quero que venhas. Quero que venhas há um ano.

Ela disse: Ok. Dá-me trinta minutos.

Ele disse: Não tenhas pressa.

Ela disse: Trinta minutos. Não me digas para não ter pressa. Levarei trinta minutos e pronto.

Ele disse: Trinta minutos.

Ela disse: Ok. Ok. Estou a sair agora. Estou a calçar os sapatos. Estou. Ok. Trinta minutos.

Ele sentou-se na cama e olhou para a parede e tentou respirar. O seu coração batia demasiado rápido. As suas mãos tremiam ligeiramente. Ele sentia como se estivesse prestes a saltar de algo alto para a água e não soubesse a profundidade.

Ele trocou de camisa. Vestiu o mesmo tipo de camisa que usava sempre. Simples. Escura. Ele olhou-se no espelho do banheiro e viu exatamente quem era. Cansado. Nervoso. O peso no seu rosto. O cabelo demasiado comprido. A barba que ele tinha aparado naquela manhã no banheiro do aeroporto porque queria parecer que tinha tentado sem parecer que estava a tentar.

Ele olhou para si mesmo e pensou no que ela veria. Não a foto. Não o ângulo controlado. Não a boa iluminação. Apenas ele. Ali parado. Real.

Ele pensou nela a dizer 'Tenho medo que, quando me vires, percebas que não sou o que pensas que sou'. Ele compreendia esse medo. Ele também o sentia. O medo de ser visto. De ser tridimensional. De ser inegável.

Bateram à porta.