Chapter 2
Resíduo
A porta estava entreaberta e isso bastava. Por um tempo.
A luz encontrou a fresta como a água encontra uma rachadura na pedra. Não se apressou. Infiltrou-se. Acumulou-se no rodapé como algo derramado e paciente. Uma linha fina e brilhante pelo chão que nada pedia e menos esperava.
Fiquei nela. Brevemente. O calor não era cruel, mas era honesto de uma forma que a escuridão havia esquecido de ser. Mostrava o pó em cada superfície. Mostrava a marca de mão na parede onde algo fora estabilizado, alcançado ou segurado. Mostrava a forma do quarto como realmente era. Não como as sombras o haviam lisonjeado.
O rosto junto à porta havia acumulado uma fina película da escuridão. Como pólen. Como fuligem. Pensei em empurrá-lo de volta para o lugar, mas a luz teria visto o que estava por baixo. E a luz não esquece o que viu.
Então o pé permaneceu plantado onde as tábuas do assoalho encontram o limiar. Um lado iluminado. Um lado não. A linha entre eles era fina como um fôlego contido.
O sol seguiu seu curso, como os sóis fazem. Sem despedida. Sem um escurecer gradual para marcar o momento. Simplesmente era e então não era mais. A fresta se estreitou. A linha brilhante afinou-se até virar um fio e depois nada, e o quarto retomou suas formas generosas. Seus ângulos suaves e desonestos. Sua escuridão complacente.
A porta fechou-se como uma mão se fecha em torno de algo já desaparecido. Não forçada. Não perseguida. A fechadura girou sem som porque não havia mais nada a resistir. A escuridão não se regozijou. Não se apressou em entrar. Estivera sentada ao meu lado o tempo todo. Simplesmente retomou o espaço que sempre a esperava.
A coroa ainda está no assento onde a mão a colocou. O rosto ainda está junto aos sapatos. A porta está trancada, mas não por fora. Nem por dentro. Está apenas trancada. Como uma estação termina. Como um fôlego encontra seu chão e se acomoda ali sem que lhe seja dito.
Algumas portas não são fechadas contra algo. Elas são fechadas porque a partida já aconteceu, e o batente estava cansado de ficar aberto para uma luz que havia seguido em frente.