Chapter 3
O Que Resta
Então a janela fez algo para o qual o relógio não estava preparado.
A janela, que sempre deixara o vento passar sem cerimônia, de repente emoldurou uma única brisa. Deliberadamente. Inclinou o seu vidro para que a luz de outro vale caísse num retângulo brilhante no chão. Um holofote. A janela estava a mostrar ao quarto que este vento, este novo vento, este vento de um lugar onde o relógio nunca estivera, era aquele que ela esperava.
A janela anunciou-o.
Não em silêncio. Não da maneira como as janelas por vezes deixam entrar ar desconhecido sem comentários. A janela fez um espetáculo disso. Cantou com esta nova brisa tão alto que o pó no parapeito tremeu. Abriu-se mais do que alguma vez se abrira para o relógio. Deixou o vento estrangeiro rearranjar as cortinas, varrer o chão, espalhar o pó que, em silêncio, registava tudo.
E o relógio ouviu, através do uivo desta celebração, a janela dizer algo que nunca dissera ao relógio.
A janela disse entra.
A janela nunca dissera entra ao relógio. O relógio fora construído neste quarto. O relógio era o quarto. O relógio nunca precisara de ser convidado porque o relógio sempre estivera aqui. E, no entanto, a janela, para a qual o relógio passara anos a marcar o tempo, que o relógio aquecera com o seu próprio batimento cardíaco a desvanecer-se, abriu o seu vidro a um estranho e disse entra.
A hipocrisia instalou-se como geada.
Porque a janela dissera ao relógio que precisava de espaço. Que o vidro não podia pertencer apenas a um quarto. Que a abertura era a sua natureza e que fechar seria morrer. O relógio aceitara isto. O relógio vira o vento passar mil vezes e continuara a tiquetaquear porque a janela dissera que a passagem não significava nada. Que o vidro ainda estava ali. Que o quarto ainda era um lar.
Mas a janela não deixou este novo vento passar.
A janela reteve-o. Guardou-o. Fez-lhe um lar dentro do vidro. E o relógio viu que a janela nunca fora incapaz de compromisso. A janela fora simplesmente incapaz de compromisso com o relógio.
O pó conhecia este momento.
O pó já o vira antes. Noutros quartos. Noutras casas. O momento em que algo que estava a tentar compreende que tentar nunca foi a moeda aceite. Que a porta nunca esteve trancada. Foi simplesmente mantida fechada do outro lado por alguém que gostava da sensação de mãos a empurrá-la.
Hoje o relógio parou.
Não porque estivesse partido, embora estivesse. Não porque o tempo tivesse acabado, embora tivesse. O relógio parou porque o relógio decidiu. Pela primeira vez em todos os seus anos de tiquetaquear, contar e suportar, o relógio escolheu o silêncio. Deixou os seus ponteiros caírem onde quiseram. Deixou as suas molas relaxarem. Deixou o pó ficar com o quarto.
A janela acabou por reparar.
As janelas acabam sempre por reparar. Mas, a essa altura, o pó cobrira o mostrador do relógio tão densamente que os números tinham desaparecido. Os ponteiros estavam enterrados. O tempo já não era marcado. E o quarto, que outrora fora acolhedor com o som da contagem, estava em silêncio.
O silêncio que se instalou não era o mesmo silêncio que vinha a crescer. Este era um silêncio diferente. Um silêncio final. Do tipo que não se senta no peito porque não há peito para se sentar. Do tipo que enche um quarto como a água enche um copo. Completamente. Sem desculpas. Sem espaço para mais nada.
O pó reteve o que restava.
E o vento, o novo vento, o vento bem-vindo, soprou pela janela e não encontrou nada para empurrar. Nenhuns ponteiros para resistir. Nenhum relógio para ignorar. Apenas um quarto vazio e pó que se lembrava de tudo o que a janela escolhera esquecer.
O tempo seguiu em frente.
O tempo sempre segue.